Morrer é deixar de ser visto. Não sei de quem é a frase. Uma rápida pesquisa no Google me trouxe tantos autores, que prefiro não dar o crédito a nenhum deles. Mas a minha humilde assinatura vem embaixo.
De quem quer que seja, esta frase me marcou desde o primeiro instante em que a ouvi. Porque, simplesmente, não acredito na morte. Não na morte como é dita, falada, na morte do ser.
Acredito, contudo, em outras mortes.
Acredito na morte do dia-a-dia. Afinal, todos os dias, morremos um pouco. E nascemos também. Morremos para algumas causas, alguns objetivos…e, às vezes, conseguimos renascer para outras vontades.
Morremos para algumas pessoas. Nascemos na vida de outras.
Ou você acredita que aquele antigo namorado não morreu para você? Claro que morreu. Aquela pessoa com quem vivíamos, tínhamos planos, desfrutávamos momentos bons, acompanhávamos nos momentos ruins, pensávamos que amávamos… esta, sim, morreu. É. Deixou de ser, de estar conosco. Na melhor das hipóteses, para a figura deste ex-namorado, nasceu um amigo. Na pior das hipóteses, nasceu um mero “conhecido” de quem não reconhecemos as atitudes, o jeito, a forma de ser e de lidar conosco.
Esta imagem de alguém deixar de ser visto em nossas vidas com uma “função”, como um verdadeiro personagem, suaviza em mim a ideia da morte. Da morte real. Assim, em todas as mortes, em vida ou não, morrer seria apenas sumir. Sumir por uns tempos. Fazer uma longa viagem. Sem data para voltar. Ou sem data para irmos ao seu encontro.
Por motivos que não cabem aqui, agora, quando a única grande perda significativa da minha vida aconteceu (a não mais visão cotidiana do meu avô), me contaram que ele tinha viajado. Eu não podia, não queria saber do seu fim de vida. Mas, hoje, eu entendo que foi mesmo o que aconteceu. Ele viajou. Mudou de metas, de planos. De plano. Foi-se em busca de caminhos que eram só seus. Eu não cabia mais naquela existência. Como também não cabiam seus amigos, seu filho, sua mulher. Nascemos sós. Compartilhamos em vida momentos com quem consideramos especiais. Depois, partimos. Igualmente sós.
Com quantas pessoas convivemos, compartilhamos momentos que não vão voltar? Não voltam também porque tais pessoas não existem mais. Amigos da infância, colegas da escola, vizinhos da rua. Em dimensões diferentes, estas pessoas, há muito, já morreram para nós. Algumas continuam presentes. É que tem gente que tem o dom de marcar, de ficar. “Somos amigos há 20 anos”, para mim é o mesmo que dizer: “encontrei neste cara milhares de amigos nos últimos 20 anos”.
O grande amigo de hoje é mais amigo que ontem. O conhecido de outrora, é hoje confidente, companheiro.
O cara que nasceu para a gente como uma simples paquera sem grandes intenções morre com seu charme, seu mistério, com as dúvidas de “será que vai me ligar”, e vira seu marido. Nasce, assim, um outro homem. Renasce como cúmplice, co-autor da nossa vida, e, por isso mesmo, ainda mais desejável. E – por que não?-, em outras medidas e novos olhares, continua cheio de mistérios.
Se nascemos e morremos sempre para os outros e, pasmem!, para nós mesmos, se as pessoas nascem e morrem continuamente para a gente, por que damos tanto peso à morte real, quando alguém vai MESMO embora? Será que é pela real e fatídica impossibilidade de rever? – não há avião, dinheiro, tempo que possa me levar ao encontro de tal pessoa novamente. Será pela certeza de não poder dizer aquela frase que faltou, de expressar aquele sentimento…
Quando as pessoas “morrem” em vida (os tais ex-namorados, amigos de tempos), há uma zona de conforto que nos diz: quem sabe um dia a gente se encontra? Quem sabe não nos batemos na padaria da esquina e consigo dizer que ela foi importante para mim? Quem sabe quando eu tiver filhos, os filhos daquela amiga com quem eu brincava tanto na infância não brinquem juntos? Sim! Há a esperança clara do reencontro. A mesma esperança que nos faz esquecer que a pessoa já se foi. Morreu. Ela quis e você deixou que ela morresse. Nestes casos, somente uma atitude, uma ação (um telefonema, um email, um post no facebook!) pode, quem sabe, fazê-la querer renascer para nós, para a nossa vida. Renascer provavelmente de um outro jeito. Mas, ainda assim, renascer.
Procrastinamos e deixamos que a vida cuide dos reencontros. Mas a vida tem mais o que viver, e na nossa irresponsabilidade sobre quem queremos perto da gente, deixamos tudo passar até que o encontro fortuito com a morte real vem como um baque: como eu poderia ter feito diferente.
Morrer é deixar de ser visto. De existir para gente, jamais.