O aço de ser um palhaço

 

Era um palhaço muito engraçado, não tinha teto, não tinha documento, mas tinha tudo. Tinha uma arte. Mas não sabia que tinha. Que tinha tudo. Achava pouco, achava sem sentido, achava sem graça. E sem graça, foi perdendo a graça. Sem graça, já não podia fazer graça, e nem queria. Sonhava com um ventilador. Que rodava, rodava… e fazia a cabeça girar. A moça má falou do ventilador. Justo ela que não prestava colocou nele a idéia do que não tinha valor. E ele acreditou. Deixou seu mundo para conquistar o que achava que seria seu universo. Precisou de um nome, identidade, documentos. Precisou do que nunca precisara na vida para comprar um ventilador. Aquele, aquele objeto que sempre quis ter para acabar com o calor, acabar com pobreza de nada ter, com a semgracice (sic) da existência. O ventilador! Símbolo de conforto, símbolo de status, símbolo de ser, ter, viver… Sim, o mundo do ventilador daria um sentido à sua vida. Daria?

Neste mundo novo, a mulher sonhada e procurada já era de outro. De outro ventilador. Tudo bem. O que importa? Agora ele também tinha o seu ventilador! E pronto. Bastava. Cabelo penteado, gravata no pescoço, emprego fixo e direito a happy hour com os novos amigos também possuidores de ventiladores.

Tudo parecia ir ao sabor dos bons ventos.

Mas viu que os donos de ventiladores queriam ter, desejam ter, precisavam ter  o que ele tinha sem fazer esforço. Sua arte. Queriam sentir-se amado. Fazer sorrir.

Bagunçou o cabelo. Tirou a gravata. Botou o chapéu. Pintou a cara. Colocou o nariz. Não era gato, mas bebeu leite, não era rato, mas comeu queijo, era palhaço e entrou no picadeiro.

Simples assim.

Soprou o vento do ventilador para o encontro da sua alma.

Porque a vida é uma palhaçada quando não se encontra o nosso palhaço.

Publicado em: às 15 de janeiro de 2012 em 11:09 PM  Deixe um comentário  

A existência na vida

Morrer é deixar de ser visto. Não sei de quem é a frase. Uma rápida pesquisa no Google me trouxe tantos autores, que prefiro não dar o crédito a nenhum deles. Mas a minha humilde assinatura vem embaixo.

De quem quer que seja, esta frase me marcou desde o primeiro instante em que a ouvi. Porque, simplesmente, não acredito na morte. Não na morte como é dita, falada, na morte do ser.

Acredito, contudo, em outras mortes.

Acredito na morte do dia-a-dia. Afinal, todos os dias, morremos um pouco. E nascemos também.  Morremos para algumas causas, alguns objetivos…e, às vezes, conseguimos renascer para outras vontades.

Morremos para algumas pessoas. Nascemos na vida de outras.

Ou você acredita que aquele antigo namorado não morreu para você? Claro que morreu. Aquela pessoa com quem vivíamos, tínhamos planos, desfrutávamos momentos bons, acompanhávamos nos momentos ruins, pensávamos que amávamos… esta, sim, morreu. É. Deixou de ser, de estar conosco. Na melhor das hipóteses, para a figura deste ex-namorado, nasceu um amigo. Na pior das hipóteses, nasceu um mero “conhecido” de quem não reconhecemos as atitudes, o jeito, a forma de ser e de lidar conosco.

Esta imagem de alguém deixar de ser visto em nossas vidas com uma “função”, como um verdadeiro personagem, suaviza em mim a ideia da morte. Da morte real. Assim, em todas as mortes, em vida ou não, morrer seria apenas sumir. Sumir por uns tempos. Fazer uma longa viagem. Sem data para voltar. Ou sem data para irmos ao seu encontro.

Por motivos que não cabem aqui, agora, quando a única grande perda significativa da minha vida aconteceu (a não mais visão cotidiana do meu avô), me contaram que ele tinha viajado. Eu não podia, não queria saber do seu fim de vida. Mas, hoje, eu entendo que foi mesmo o que aconteceu. Ele viajou. Mudou de metas, de planos. De plano. Foi-se em busca de caminhos que eram só seus. Eu não cabia mais naquela existência. Como também não cabiam seus amigos, seu filho, sua mulher. Nascemos sós. Compartilhamos em vida momentos com quem consideramos especiais. Depois, partimos. Igualmente sós.

Com quantas pessoas convivemos, compartilhamos momentos que não vão voltar? Não voltam também porque tais pessoas não existem mais. Amigos da infância, colegas da escola, vizinhos da rua. Em dimensões diferentes, estas pessoas, há muito, já morreram para nós. Algumas continuam presentes. É que tem gente que tem o dom de marcar, de ficar. “Somos amigos há 20 anos”, para mim é o mesmo que dizer: “encontrei neste cara milhares de amigos nos últimos 20 anos”.

O grande amigo de hoje é mais amigo que ontem. O conhecido de outrora, é hoje confidente, companheiro.

O cara que nasceu para a gente como uma simples paquera sem grandes intenções morre com seu charme, seu mistério, com as dúvidas de “será que vai me ligar”, e vira seu marido. Nasce, assim, um outro homem. Renasce como cúmplice, co-autor da nossa vida, e, por isso mesmo, ainda mais desejável. E – por que não?-, em outras medidas e novos olhares, continua cheio de mistérios.

Se nascemos e morremos sempre para os outros e, pasmem!, para nós mesmos, se as pessoas nascem e morrem continuamente para a gente, por que damos tanto peso à morte real, quando alguém vai MESMO embora? Será que é pela real e fatídica impossibilidade de rever? – não há avião, dinheiro, tempo que possa me levar ao encontro de tal pessoa novamente. Será pela certeza de não poder dizer aquela frase que faltou, de expressar aquele sentimento…

Quando as pessoas “morrem” em vida (os tais ex-namorados, amigos de tempos), há uma zona de conforto que nos diz: quem sabe um dia a gente se encontra? Quem sabe não nos batemos na padaria da esquina e consigo dizer que ela foi importante para mim? Quem sabe quando eu tiver filhos, os filhos daquela amiga com quem eu brincava tanto na infância não brinquem juntos? Sim! Há a esperança clara do reencontro. A mesma esperança que nos faz esquecer que a pessoa já se foi. Morreu. Ela quis e você deixou que ela morresse. Nestes casos, somente uma atitude, uma ação (um telefonema, um email, um post no facebook!) pode, quem sabe, fazê-la querer renascer para nós, para a nossa vida. Renascer provavelmente de um outro jeito. Mas, ainda assim, renascer.

Procrastinamos e deixamos que a vida cuide dos reencontros. Mas a vida tem mais o que viver, e na nossa irresponsabilidade sobre quem queremos perto da gente, deixamos tudo passar até que o encontro fortuito com a morte real vem como um baque: como eu poderia ter feito diferente. 

Morrer é deixar de ser visto. De existir para gente, jamais.

Publicado em: às 24 de abril de 2011 em 1:42 AM  Comentários (4)  

Timing da vida

Ela amou de verdade. Entregou seus abraços, seus beijos, sua vida, seus sonhos, seus talentos… a um homem. Mudou de cidade, deixou a família. “Um dia eu volto, mãe. Vou sentir saudades, pai”. E foi. Viajou quilômetros, milhares deles, ao encontro do sonho do companheiro. Um novo trabalho, uma nova vida, mil e uma oportunidades.

Para ele.

O ciúme dele disfarçado de apreço implorou: “Não! Você não precisa trabalhar! Fica em casa, cuidando de você. Cuidando de mim”.

Ela sorriu envaidecida. Consentiu. “Ele me ama e é a minha vida. Meu mundo!”

Engravidou. Três vezes. Três meninas. O ciúme macho dele triplicou.”Creche para quê? Não quero ninguém maltratando minhas meninas! Você fica em casa. Seu emprego agora é ser mãe”.

Ficou.

Com os anos, o tempo foi apagando aquela mulher que amava, e vibrava. A imagem da mulher feliz já não era tão clara. Ficava opaca. Fosca. Amarelada. Na mente, a saudade do que nunca conseguiu ser. Na expressão, a saudade da mãe. E do pai. Saudade de mais de 20 anos.

Sem brilho, sem por quê, com saudade, resolveu voltar para ver a família. Não tinha estudo. Fez faxina em casa alheia. Fez o que pode. Economizou. Juntou dinheiro. Iria logo ver os verdadeiramente seus. O marido implicava, dizia não. Para quê? Fala por telefone…

A falta do amor em casa a lembrou do amor que tinha deixado longe. O peito apertava. Quando se imaginava abraçando, sentindo de novo os pais pertinho, no ninho, chorava. De alegria! E viveu para sonhar com este dia. Sem realizar.

A caçula tá doente. Faltou comprar aquele livro do material escolar da maior. O marido perdeu o emprego. Tá faltando dinheiro. E o sonho ficava para amanhã. Para depois. Depois. Depois. Nunca.

Um telefonema. “O pai tá ruim! Vem para cá. Dá um jeito. Vem dizer adeus”.

Fica catatônica. E prática. Pede dinheiro a um. Lembra daquele ex-patrão generoso e telefona: “pago quando puder!”. Encontra em alguns a generosidade que não teve da vida. Entra no ônibus. Então, se permite chorar. Três dias de viagem. Aflita. Medo, remorso, mágoa. Raiva. Não havia valido a pena. Não, não havia.

Ensaiu o texto na viagem (“Eu te amo muito, pai. Se pudesse voltar atrás… Se pudesse fazer diferente… Vá com Deus. Te encontro, quando Ele quiser). Quando conseguia dormir, tinha pesadelos com a morte do único homem que a amou de verdade. Às vezes, sonhava com o mundo de sonhos da infância: leite quente antes de dormir, paozinho assado no forno à lenha de tardezinha. O pai pedindo a benção. A mãe beijando o marido. 

O ônibus chegou no horário. Ela não. Chegou tarde. Perdeu o timing da vida. E a razão de tudo.

Publicado em: às 9 de abril de 2011 em 7:10 PM  Deixe um comentário  

Mulher de 30

Fiz 31 anos. E agora não tem mais jeito. A ficha cai. De vez! Puf. Sou Balzaquiana. E que delícia é encarar este personagem.  Meio que intuitivamente, meio que sem entender por quê, integralmente a gente acaba se sentindo completa. É como se não nos faltasse mais (quase) nada para ser quem escreveram que a gente devia ser. 

 Aceitamos mais nosso corpo (sim, ainda dá para melhorar algumas coisas, mas chega de fantasiar que vai dar para ficar com a bunda da paniquete, o peito da Daniele Vinits siliconada e o cabelo milimetricamente ondulado da Gisele Bundchen) e entendemos melhor nossa mente (as qualidades estão cada vez mais arraigadas e os defeitos, bem, a gente aprende a conviver com eles. Na boa. Sem mágoas e sem aquela raiva da gente mesmo).

E se nós todas que chegamos aos trinta não pararmos  e pensarmos um pouco que seja, talvez nem possa se dar conta de tudo isso. As mudanças ficam descobertas apenas pela intuição e pelas atitudes que, graças, costumam vir após sentimentos seguros, bem definidos.

Pois então. Eu não tinha pensado nisso tudo. Apenas, como toda boa mulher de 30, estava vendo o lado ruim: a vida levando, a vida passando e nem sempre trazendo algo de maravilhoso com o tempo. (É. Nem sempre dá para ser tão positivo nesta vida…)

Mas um grande amigo, Kadu, ator, sensível e bem experiente no quesito mulher – diga-se de passagem – num papo bem casual, arranca a venda dos meus olhos com um discurso cheio de epifania(e aqui, um pouco de discurso rodriguiano – adendo meu – só para enfeitar a vida como ela é):¨ – Elen, a mulher que chegou aos trinta é um estouro.  Sim. Pefeita. Batata! Ela está no auge da sexualidade, no ápica da sensualida, tem autoestima nem para mais nem para menos. No ponto. Te digo. Ela sabe o que quer. Não dá trabalho, não tem frescura. Independente.  Um tesouro!!!¨

Adorei. Me senti, me identifiquei com a ¨ELA¨acima.

Sim! Sim… Somos perfeitas.

Mas aí, vem o lado B do disco: ¨- Para mim, a mulher de trinta só tem dois defeitos.: tá louca para casar e, pior, tá contando as horas para engravidar. Pois… Batata¨.

Batata. Batata mesmo. Queremos, sim. E mais: queremos casa, jogo de panelas, rede na varanda e cachorrinho latindo.

Depois de muitos anos (é! Não são poucos! São trinta, meu bem… Trinta!) e muita luta, insegurança e inúmeras lágrimas derramadas, queremos dividir esta pessoa que já conhecemos, entendemos e amamos com o mundo! Mas um mundo nosso. Um mundinho pequeno, restrito. Um mundo que, de fato, mereça nossa felicidade. E este mundo é a nossa família.  A família que nós escolhemos. Uma família novinha. Construída por nós e conosco.

Para quem está, assim como meu amigo na segunda dezena dos anos de vida, um conselho: ame-nos, e inteira, suave e complemente, ou nos deixe.

Yes! Im thirty!

Publicado em: às 24 de março de 2011 em 11:38 PM  Comentários (1)  

A problemática do problema

Um dia, uma espinha é problema. No outro, é o namorado que não telefona. Há quem diga que problema mesmo é perder alguém (e há muitas formas de se perder uma pessoa). Outros dizem que é a saúde. Será dinheiro (ou melhor, a falta ou, por que não, o excesso) um problema? Quem sabe o grande problema, mestre de todos seria a falta de afeto?

Bom, tudo isso pode ser problema.

Ou não.

O momento, as prioridades, a essência de cada um dita o que é uma preocupação.  Para um adolescente, o rosto enfeitado de pontos vermelhos pode ser realmente o fim do mundo (leia-se o fim da perspctiva de ser um gatinho do colégio).A saúde pode ser, sim, uma questão que tire o sono.  Mas vai depender do tamanho do susto do diagnóstico e de outros ¨problemas¨paralelos que requeiram nossa atenção. 

Perder alguém amado é um problema. E aí não cabem elocubrações.

O que quero dizer – e o que estou sentindo neste instante – é que problemas são relativos e, quando colocados em perspectiva (como diria o grande amor da minha vida), podem se tornar um grão de areia ou, talvez, uma tempestade inteira.

Às vezes, a gente acha que x é grave. Até que apareça y. E mude tudo. Reavaliamos, assim, o que seria problema.

Acho mesmo que, para que hajam tantas dimensões problemáticas de problema, o que acontece conosco é que os cultivamos. Gostamos de tê-los. Arrumamos. Ou, na ausência de questionamentos, abrimo-nos para outros até então inexistentes. Seria o tal gozo da negatividade de que os profissionais da mente tanto falam.

O que é problema?

Bom, agora tenho estado mais preocupada em saber o que é solução.

Publicado em: às 21 de março de 2011 em 8:07 PM  Deixe um comentário  

31 verões (só para homenagear a atual estação)

Retiro tudo, tudo que eu disse a respeito do orkut, facebook, enfim, meios cibernéticos de relacionamento!

O motivo é um só e talvez bem egoísta: meu aniversário.

Estando longe de onde moro, com um chip novo de celular e, por isso mesmo, número totalmente desconhecido de todos, pude, através de tais ferramentas receber o carinho de muita gente no dia em que completei mais uma primavera (argh! Este termo é horrível. Ele pretere todas as outras estaçoes. E quando lembro por exemplo do que vivi no outono em Nova York – nome de filme até! – e no inverno maravilhoso que passei em Paris, abomino ainda mais a predileçao pela tal estaçao das flores. Até porque, na vida, quem faz as tais flores somos nós).

Voltando ao ciberespaço… pois é, foi ele que me fez sentir tao amada no dia 9 de março. Sim, porque, vivendo na nossa cultura ocidental, é isso que queremos sempre, né? E o privilégio de termo um dia inteirinho para nos sentirmos amada, entao, é maravilhos. Um dia só nosso. Algo bem, mais bem egoísta. Mas e daí já que nos faz feliz?

Claro que a lembrança do dia do aniversário de quem gostamos nao vem sozinha. Nao desce na nossa mente unica e exclusivamente pelo afeto que temos pela pessoa e pela vontade de ve-la sorrir ainda mais no dia em que o calendário se dedicou a ela. Antigamente, as datas ficam anotadinhas de caneta no papel de agendas. Antes, talvez (meus somente 31 anos nao permitiram ver tudoo isso), marcadas na folhinha presa na parede. Hoje, nos sites de relacionamento. E graças a Deus! O fato é que o mundo virtual é  cada vez mais imprescindível para continuarmos regando as relaçoes (aqui, um temo de jardinagem só para nao abandonar de vez a estaçao das flores). Precisamos de um facebook, um bip no celular, um alerta no iphone que grite: páre tudo!!!! Nao corra tanto assim. É hora de amar. É tempo de demonstrar amor.

Pois tá. Em meio a tantos “parab[ens!” ou  “tudo de bom!” de tantos, há os poucos e sinceros “parabéns!”,  “tudo de bom!”. Poucos e plenos. Lindos!

Foram estes últimos que me emocionaram.  “Parabéns” de gente querida que demora para nos ver, mas que aproveita aquele lembrete virtual para dizer: oi, nao te vejo, nao te encontro, estou tentando fazer minha carreira, ganhar mais dinheiro, encontrar alguém que me ame, fazer um filho, procurando uma boa terapia, mas quero te dizer que gosto sinceramente de voce e do tempo em que convivemos juntos. 

Foi isso que senti.

Passamos pela vida das pessoas. Nem sempre ficamos. Quase nunca. Mas é no aniversário, ou melhor, na chance que esta data nos dá, que sentimos que cada nova amizade – ainda que se vá um dia -, cada nova relaçao amorosa – ainda que nos deixe machucados -, cada parente com quem convivemos na infancia – ainda que ele cresça, e nós também, e nem nos reconheçamos mais -, valem por cada momento vivido, que fica tatuado, de algum jeito, em quem somos. Por isso a lembrança, o reconhecimento, a vontade de dizer “ei, voce me marcou e ainda lembro de voce”. 

É  com as pessoas que nos construímos. 

Obrigada a quem me desejou um feliz aniversário. Obrigada a todos que passaram e passam e ficam na minha vida. Voces também sao responsaveis pelas tais 31 primaverinhas (argh! No diminutivos fica pior ainda!)

rs

Beijos!

Publicado em: às 12 de março de 2011 em 9:04 PM  Deixe um comentário  

O reino cruel da kiboa.

Ela viu a blusinha na loja; amou! O preço mais que convidativo, mas implorativo: me compre! me leve! por favor! O marido dela comprou. Estavam em lua de mel em Buenos Aires.

Ela ficou com a peça.

Usou. Tirou fotos com ela. Ao lado do homem da sua vida.

A camisa com sua malha gostosa realçava a lembrança daqueles dias.

Mangas longas e aconchegantes viraram companhia constante. Em manhãs frias, então, era uma verdadeira malvee – um convite para um abraço.

Tudo ia bem. E a menina estava feliz. Mais eis que surge a kiboa. Ai de mim! Para que que esta merda existe? Com certeza não existe para quem é leve. 

E ela, finalmente, aprendeu a primeira lição do reino das kiboas: quem não gosta de viver atento em demasia, não a use. Nunca. Jamais.

Ela usou. Lavou o alface. A maçã. O tomate. E sentou para escrever no computador, sentindo-se ainda abraçada com o carinho da blusa, embora longe do melhor abraço do mundo: o do marido.

De relance – num abaixar leve de pescoço -, olha para a blusa. Cinca. Toda cinza. Era. Agora ela tem pingos brancos. Sim, a kiboa também quis o abraço.

Raiva. Tristeza. Foi como se tivessem cortado o carinho. Afastado o ser abraçador do abraçado. Tudo continuava lá. Mas não era mais o mesmo. Havia manchas. E que palavra forte: mancha.

Preocupar-se com pouco? Se o pouco é um símbolo, não é tão pouco assim. É, aliás, muito.  A blusa representa uma viagem, um carinho, aquele dia do vinho com papas fritas.

E agora?

A menina não se conforma. E não vai deixar o abraço, não vai abandonar a blusa na parte roupasparausaremcasa do guarda-roupa. E viva a Moda. Ela lembra do tie-die. E faz. Mais e mais manchinhas. E lá se vão gotas de quiboa nos dedos e respingos no abraço. E o abraço se contamina e vira outra coisa. Melhora (?). E agora tem mais história.

Paris! Aguarde a menina. E sua blusa que convida para mais abraços.

E.

Publicado em: às 2 de outubro de 2010 em 11:02 AM  Comentários (1)  

Tempo passa e um bom tempo vem

A chuva caiu ontem em Vilhena. Caiu forte, com direito a raios, tovões, clarões enormes no céu. Direito a várias quedas de energia. Direito de Lupito brincar de esconde-esconde comigo no escuro. Direito de desmarcar o compromisso com as amigas e ficar em casa, curtindo o barulhinho bom da chuva na janela.

O céu amanheceu mais claro. Os narizes poderam respirar melhor. É que a fumaça deu uma trégua (ou melhor, deram uma trégua na fumaça. Por “deram” entendam a chuva).

24 horas depois do presente de Papai do Céu para esta região que sofre com a ignorância que desmata, tem ventinho empurrando a cortina, tem clima fresquinho, tem cheiro bom no ar.

Já não era sem tempo.

Publicado em: às 1 de outubro de 2010 em 10:14 PM  Deixe um comentário  

Ler, ler e ler

Acabei de ler um livro. E que sensação boa é esta de acabar. Melhor ainda quando este acabar indica um começar.

“Comer, rezar e amar”, de Elizabeth Gilbert (Liz para os íntimos rs), me dá vontade de seguir lendo, e muito! Na sua viagem pelo mundo e, especialmente, por dentro de si mesma, descobrimos lugares, modos de vida (e suas intrínsecas diferenças0 que nos faz querer conhecer ainda mais. Sobre a vida.

A sinceridade da autora, os sentimentos que são comuns a todos nós (“Nossa! Ela também passou por isso!”, “Gente! Olha o que ela pensa!, “Eu também já senti esta vergonha, este medo” - frases mentais recorrentes na leitura de Liz) são desnudados ao longo da leitura. Depois de tudo que viveu e de toda sua reconstrução emocional, Liz não tem medo de expor-se, de mostrar-se. E num tempo de fantasias, ilusões midiáticas, máscaras num mundo quase de mentira, a nudez da alma faz bem aos leitores. Ufa! Alguém disposto a ser. Simplesmente ser.

Cheguei a me sentir amada e compreendida por Liz. Como uma amiga.

P. S. O livro foi indicação de Veja, colegas, jornais e revistas. Não atendi. Indicado por Nardele Gomes, a minha Liz Gilbert - tão sencera, humana, inteligente, sagaz, forte, determinada (a se amar, que é a melhor determinação que pode haver), sensível quanto a autora de Comer, Rezar e Amar -, comprei, marquei o livro todinho, e mais do que ler, eu vivi o livro.

Attraversiamo! Para uma próxima experiência literária…

Publicado em: às 23 de setembro de 2010 em 9:36 AM  Comentários (2)  

Elen da onde?

Oh, expressãozinha que me irrita: da onde?

A cena é sempre a mesma:

- Fulano está? (Leia-se: Fulano é sempre alguém megahipersuper importante no seu minimirimmicroscópicomicro universo de poder).

- Quem gostaria? (Note-se que a resposta à pergunda se Fulano estaria não fora dada…rs Claro!)

- Elen

-Elen da onde?

Putz. PQP. P####. M#%####! Car%&#@####!!!!

Da onde como? Da Rua, da Fazenda, de uma Casinha de Sapê…! Que inferno. Por que as pessoas não podem ser sinceras e dizer se Fulano está ou não, e perguntar a Fulano se ele deseja falar com você?

A figura que quer tanto saber as minhas origenes é a secretária que no seu rigor formal beira à antipatia e à obvia inferência de que seu “da onde” vai determinar o seu atendimento ou não por fulano.

O detalhe é que as pessoas são tão mal preparadas que qualquer resposta que você dê – pelo menos aqui em Vilhena – serve

- Elen Vila Nova, jornalista (reparem que não disse da onde sou…).

Ok. E me passam para Fulano.

Façam-me o favor!!!!

Elen (extremamente irritada!).

-

Publicado em: às 13 de julho de 2010 em 10:53 AM  Deixe um comentário  
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