Era um palhaço muito engraçado, não tinha teto, não tinha documento, mas tinha tudo. Tinha uma arte. Mas não sabia que tinha. Que tinha tudo. Achava pouco, achava sem sentido, achava sem graça. E sem graça, foi perdendo a graça. Sem graça, já não podia fazer graça, e nem queria. Sonhava com um ventilador. Que rodava, rodava… e fazia a cabeça girar. A moça má falou do ventilador. Justo ela que não prestava colocou nele a idéia do que não tinha valor. E ele acreditou. Deixou seu mundo para conquistar o que achava que seria seu universo. Precisou de um nome, identidade, documentos. Precisou do que nunca precisara na vida para comprar um ventilador. Aquele, aquele objeto que sempre quis ter para acabar com o calor, acabar com pobreza de nada ter, com a semgracice (sic) da existência. O ventilador! Símbolo de conforto, símbolo de status, símbolo de ser, ter, viver… Sim, o mundo do ventilador daria um sentido à sua vida. Daria?
Neste mundo novo, a mulher sonhada e procurada já era de outro. De outro ventilador. Tudo bem. O que importa? Agora ele também tinha o seu ventilador! E pronto. Bastava. Cabelo penteado, gravata no pescoço, emprego fixo e direito a happy hour com os novos amigos também possuidores de ventiladores.
Tudo parecia ir ao sabor dos bons ventos.
Mas viu que os donos de ventiladores queriam ter, desejam ter, precisavam ter o que ele tinha sem fazer esforço. Sua arte. Queriam sentir-se amado. Fazer sorrir.
Bagunçou o cabelo. Tirou a gravata. Botou o chapéu. Pintou a cara. Colocou o nariz. Não era gato, mas bebeu leite, não era rato, mas comeu queijo, era palhaço e entrou no picadeiro.
Simples assim.
Soprou o vento do ventilador para o encontro da sua alma.
Porque a vida é uma palhaçada quando não se encontra o nosso palhaço.
